CAPÍTULO 1 p.1 -
FALÊNCIA.
POV
Era outro dia de chuva em Londres, molhando o pára-brisa do meu carro insistentemente num engarrafamento no centro. Não me estressava, eu estava naquele estado infidamente entediado há quase um ano, e nada parecia divertir-me. Bryan Adams era a trilha sonora, e com certeza ajudava a livrar o tédio; eu cantarolava a música.
I wanna be your lipstick... when you lick it
I wanna be your high heels, when you kick it!
As batidas no volante de acordo com a música eram inevitáveis. Quem quer que me olhasse de longe jamais cogitaria um homem destruído por dentro. Minha empresa, amada empresa, estava desmoronando; aliás, o uso do gerúndio é forma de amenizar as coisas. Eu e Chay tivemos de vender nossas ações ao máximo, mas valiam tão pouco... Logo funcionários tiveram de ser demitidos, e depois, por mais que soubesse que aquilo poderia acontecer, Emily deu entrada no Hospital, sentindo dores tremendas. A London Music já não tinha qualquer valorização, e Emily estava a falecer, assim como elaprevira. Ela que se fora com a promessa de voltar, mas ainda não o havia feito. Lua não partiu o meu coração, ela partiu com ele, levou-o consigo. Então eu sinto pulsos chocando-se entre minhas vértebras, impulsionando vida. E esse sou eu, fracassado, mas sempre orgulhoso. Por isso, meu bip permanecia cantando como sempre; e dessa vez, era um pouco diferente. Paige ligava.
Emily faleceu. E junto com ela foi-se meu sócio, que se culpava por sua morte. E ainda assim, aquela que eu considerara como minha irmã, jamais me falou do seu passado, do que a trouxe de volta desde a tentativa de recomeço de vida em Cambridge. Emily, para mim, passou a ser desconhecida desde sua saída do meio urbano de Londres e construção da nova casa em Cambridge, devido à reabilitação. O que eu não conseguia entender era porqueChay culpava-se tanto.
Recuei meus pensamentos à exímia realidade que me aguardava, finalmente pude retirar o pé da embreagem e seguir o meu rumo do dia, afundando o acelerador. Bem vestido no meu melhor terno, receberia hoje o novo sócio majoritário da London Music. Nem tudo estava perdido, eu só teria de baixar o meu ego e submeter-me a um chefe, mas isso seria apenas depois, daqui a quatro horas, pois eu havia reservado um tempo para convencer Chay a voltar à realidade.
Mais trinta minutos de engarrafamento e cheguei a um restaurante perto do grande prédio onde se situava a empresa. A empresa que não mais era minha. Suspirei fundo enquanto estacionei a Land Rover atrás da caminhonete Mitsubishi de Chay. Em passos rápidos, dirigi-me aquele lugar abarrotado de gente, mas que mesmo assim conseguia sustentar apenas em ruídos silenciosos de vozes calmas. Era o que eu mais gostava daquele lugar, nobre educação de restaurantes qualificados.
Chay estava terrível. Mesmo vestido naquele terno negro e o colete vermelho sangue, um dos seus preferidos, a gravata estava folgada, os cabelos bagunçadas e o rosto da abstinência. Ele não quis vender a casa de Emily, mas na necessidade do dinheiro, o fez com o seu próprio apartamento. Eu não tinha nem noção do que aquele lugar havia se tornado - a pequena casa de Emily - mas também não queria imaginar. Sentei à sua frente e pedi ao garçom apenas um copo de água.
- Chay... - chamei-o com a voz calma. - Você precisa melhorar essa cara. Agora está na hora de levantar-se. Ajeite-se.
- Hoje eu me lembrei dela de novo... - Disse-me com a voz fraquejada, entre o grave e o rouco, quase inaudível. Levantou o rosto e virou para a janela ao nosso lado; pude notar que seus olhos estavam lacrimejando; quando a mão levantou, também revelou as tatuagens nos dedos e anéis.
- Ela se foi para sempre. Aliás, até quando você morrer, e quando você encontrá-la no céu, diga à Em que eu mandei um 'Oi'. - disse-lhe com um sorriso de lado. Ele soltou uma pequena risada irônica.
- Esqueci-me de que você tem a certeza que vai pro inferno, mal-amado. - ele sorriu contra a própria vontade de ser triste, e não tardou a olhar silenciosa e depressivamente para a luz cinza que vinha da janela. Colocou a mão de dedos agora tatuados no queixo, apoiando-o, e o cotovelo sobre a mesa. - Não é sobre Emily... - crispou os lábios - é Lua.
- Ah... - o nome dela proferido por Chay deu-me uma sensação de extremo desconforto, principalmente depois de tanto tempo. Senti certa surpresa, e mantive meu olhar fixo no dele, relaxando um dos braços no apoio da cadeira. - O que foi agora?
- No diário de Emily, aquele que ela nos deu antes... - ele não foi capaz de completar a frase.
-Eu sei qual. Prossiga.
- Pois é... Eu finalmente acabei de ler. E tem mais outra parte, sobre antes de ela vir pedir ajuda para nós. - Chay retirou a mão do queixo para alisar as próprias têmporas, numa terrível expressão de dor.
- Que... - hesitei - bom. Mas você me disse que estava pensando nela de novo. E não era em Emily. - falei com certa cautela.
- Ah, sim. Porque o fim do primeiro diário era "Eu espero que ela jamais volte, e os três viverão felizes. Separados.". Essa foi a primeira vez que voltei a pensar nela. A segunda foi antes de vir aqui, quando eu abri o segundo diário... - ele suspirou, e finalmente me encarou - Não tem nada sobre o 'antes'.
Chay abriu algo que me pareceu uma pasta situada no chão ao seu lado, e dali retirou um pequeno caderno de aparência velha, de um rosa desbotado.
- Tinha sobre muito antes. - ele colocou o caderno cuidadosamente sobre a mesa.
- Chay, eu não estou entendendo nada. - admiti, levantando as duas mãos como se me rendesse.
- Você é muito burro quando quer. - ele resmungou. Franzi o cenho. - Época de faculdade, início dos anos 90. Qual era a moda, Arthur? O que a gente seguia? Onde nós morávamos?
Tive de forçar um pouco a minha memória para me lembrar daqueles tempos. Fora naquela época que consegui fazer cursos de jornalismo avulso, e vivia no metrô de Londres. O dia nem sempre era dia, mas a noite era sempre noite; festas, shows... Qualquer lugar onde houvesse jovens haveria diversão garantida.
- Sex, drugs and rock n' roll. - disse-lhe. - Morávamos num dos prédios mais caros de Londres, uma cobertura que compramos com o dinheiro que você, gênio da administração, havia feito com minha herança. Muito sexo, com certeza.
- É, muito sexo. Num apartamento onde moravam três jovens, sendo dois homens e uma mulher. E você nunca teve olhares para Emily, pelo menos naquela época. - falou-me com olhar de censura.
- Claro que não! Emily é minha irmã, digo, praticamente. Além do mais, ainda tenho uma fila para traçar... - sorri pervertido, recebendo mais um olhar de censura de Chay juntamente com sua cabeça, que balançava negativamente. Ele abriu a boca para falar, mas hesitou e encarou-me por uns instantes. Arqueei uma sobrancelha. - Chay?
- Nada, um dia eu te digo o que eu iria lhe falar. - ele sorriu um pouco macabro com seu visual deprimente. - Enfim, você com várias e eu com Emily.
- O QUÊ? - Eu quase gritei, mas Chay colocou aquela mão de anéis pratas na minha boca antes que eu aumentasse meu tom e fizesse algo pior.
- Bem disse que você é muito burro quando quer. Sexo pra você sobe e desce pras duas cabeças e nada mais entra, um fenômeno. - disse-me com escárnio. Soltei-lhe um olhar furioso e ele finalmente tirou a mão da minha boca. Senti a raiva rodopiando em cada célula, ninguém me conta as coisas! Tentei me acalmar e, com êxito, relaxei as feições, num sinal para que ele continuasse. - Não já bastasse a mistura de bebidas, eu e ela fizemos uma aposta de provar drogas. Fizemos, não passou duas semanas e paramos. Eu não sei dizer o que acontecia entre mim e Emily. Ficávamos sempre no meu quarto ao som do melhor do rock, passávamos horas conversando, e no final... - ele me olhou, e percebendo a fúria ainda evidente, amenizou as palavras. - no final você já sabe. Só que aí, a gente começou a beber menos; e Emily trancou a faculdade, alegando que não era o que ela queria.
- Disso eu lembro. - suspirei. - Ela me ligou antes, pra avisar.
Finalmente o garçom chegou com minha água e eu nunca achei que precisasse tanto de 300ml daquele líquido. Bebi com pressa e recusei qualquer coisa que o garçom oferecia naquele momento. Voltei minha atenção para Chay.
- Pois é. E eu já havia começado o mestrado, fazendo estágio, o que não me dava muito tempo em casa. Emily ficava sozinha. E aqui jaz a merda: Certo dia, quando voltei do estágio de carona, apenas cinco minutos mais cedo, a vi na varanda, cheirando carreiras de cocaína. Fui eu quem a mandei para Cambridge, voltar à faculdade, e ir pro centro de reabilitação. Jurei para ela, que quando voltasse, eu daria um jeito de fazê-la trabalhar. Ela chorou, completamente chapada, abraçada a mim.
Creditos: Fanfics Obession



Cade a lua?
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