CAPÍTULO 3 -
PERDER... PERDIÇÃO?
A insatisfação estampada no rosto de Chay era possivelmente incômoda quando, finalmente, olhei-o de relance, aproximando-se em passos determinados. Não consegui suprimir um sorriso ao conseguir ver-me daquele mesmo jeito há algum tempo atrás... Ironias do destino? Não dessa vez, tinha dedo meu na história. Não tinha a mínima idéia do que Suede tinha a me dizer - ou reclamar, tanto faz -, porém estava ciente de que o havia atiçado.
- Perdeu alguma coisa? - perguntei-lhe, ainda com resquícios do meu sorriso de escárnio pairando no lado direito dos lábios. Levantei a cabeça para encará-lo, e iniciar batalhas com seus olhos fugazes. Chay estava sério; puxou uma das cadeiras de perto da cabeceira, sentando ao meu lado, e apoiou-se na mesa de modo que seu rosto ficasse mais próximo do meu.
- Eu sou quem pergunto. Você perdeu alguma coisa? A sanidade talvez? - ele se dirigiu a mim com todo o seu poder de difamação da minha capacidade de (agora sim) manter-me sã.
- Com essa proximidade entre nossos corpos sabes que a sanidade... - voltei a puxar os papéis que lia - ... pode sim se comprometer. - Encarei-o com um olhar sério.
A rebeldia que havia adquirido em seu visual apenas o havia feito mais sexy, de um modo estrondoso e perturbadoramente encantador. Um sorriso formou-se naqueles lábios finos e rosados; só que havia um problema: Eu adorava brincar.
- Ou talvez seja apenas passado. - falei rápida, recuando.
Voltei a ler os papéis. Melhor dizendo, fingi lê-los, enquanto esperava a reação dele. Apenas ouvi sua respiração pesada, e senti o calor do seu corpo se afastar; provavelmente porque ele havia decidido encostar-se na cadeira, visto que ainda sentia sua presença. Apesar de querer brincar, eu não podia negar que no meu peito ainda batia um miserável coração; e algo que nunca mudou era por quem meu coração gritava, debatia-se: Thur. Cheguei a ranger os dentes involuntariamente, por obséquio que não havia apreciado o fato do Aguiar resolver trazer-me uma namorada. Meu medo não era de que ela fosse melhor do que eu - de maneira alguma - apenas doía-me pensar que eu pudesse ter pecado com ele de tal forma que jamais houvesse volta.
- Acho que agora sim convém a pergunta. - disse eu de cabeça baixa. Levantei meu olhar tão devagar quanto em slow motion. - Você veio fazer o que aqui mesmo?
Chay sorriu.
- Who is the boss? - perguntou, deixando um risinho escapar. - Não pensei que seria tão literalmente assim. - eu arqueei uma das sobrancelhas, confusa - Mas por quanto tempo você vai ostentar esse fardo, minha amiga Lu?
- Tempo suficiente. Depois eu devolvo o que eu peguei emprestado. - eu sorri largo, encostando-me na cadeira e alisando-a, referindo-me ao cargo que agora eu exercia.
Acabamos por deixar nossos olhares fixarem-se um ao outro, e não conseguimos deixar de gargalhar, como os bons tempos em que o fazíamos; por mais raros que fossem esses momentos. Quando ainda era uma mera funcionária e ele o chefe que me agradava pura e unicamente, no tempo em que eu ansiava pelas suas palavras a serem dirigidas a mim... Nós sempre terminávamos uma conversa, por mais breve que fosse, com um sorriso ou uma boa gargalhada. Era inexplicável. E agora se revelava incondizível, depois de tudo que aconteceu.
- Eu gostaria muito de saber os seus planos. - disse-me Chay, repondo-se na cadeira.
- Você não contou ao Aguiar, não foi? Que eu voltaria com essa promessa de dizer quem...
- Não. - interrompeu-me Chay - Eu disse a ele que você fugiu, mas que voltaria logo. Apenas isso. Sem a parte em que trocamos de papéis.
- Eu deveria ter suposto que você faria algo assim. - eu suspirei alto. - Bem, mas isso não é problema.
O silêncio então tomou conta do lugar. Passei a descascar as unhas que eu mesma havia pintado de alguma mistura de esmaltes, acho que fora café com rebu. Eu não iria revelar mais nada a Chay, e por que deveria? Preferi me manter silenciada, e agir em silêncio também.
- Eu estou esperando a pergunta. - Chay disse. Quando o encarei, seu rosto transparecia certo sarcasmo, a misturar-se com um breve sorriso de canto de boca.
- Que pergunta?
- Vamos, Lua, não precisa mentir pra mim. Faça a pergunta.
- Puta merda, que pergunta? - perguntei com a voz firme. Eu odiava quando ele queria dar aquele jeitinho teatral às coisas. Não era do tipo dele. Ou, pelo menos, não devia fazer o tipo dele.
Chay levantou da cadeira suavemente, mantendo seu olhar fixo no meu. Eu o acompanhava em cada passo de aproximação, até ele ficar atrás de mim e colocar as duas mãos, uma em cada ombro.
- Suede, não se atreva a fazer nada do que eu não possa fazê-lo se arrepender depois. - alarmei-o. A distância entre nós dois havia sido diminuída agressivamente, acordando velhos instintos os quais eu pensei estarem mortos. Ele passou a massagear meus ombros vagarosamente, deixando uma pequena risada nasalada escapar; e então, curvou a coluna para deixar sua boca a centímetros do meu ouvido. Eu me sentia como um banco prestes a ser roubado, o qual o alarme já gritava: perigo, perigo, perigo...
- Paige, a garotinha do Aguiar. - no exato momento em que Chay proferiu suas palavras, senti um impulso de raiva atingir todo o meu corpo, fazendo-me contrair os músculos e ranger os dentes levemente. Passando os lábios de forma indiscreta - ilícita! - pelo meu pescoço e nuca, Chay chegou até a outra orelha. Meu corpo não sabia se correspondia à raiva ou aos toques íntimos de Chay e o incontrolável... tesão. Apertei as minhas mãos nas bordas da cadeira, mantendo então uma posição tensa, rígida. - Ela virá para visitá-lo. Com certeza virá. Uma garotinha, a Paige, completamente apaixonada pelos dotes do querido Aguiar. - sussurrou Chay ao outro ouvido. Puxei fundo o ar para os meus pulmões e arfei, ranzinza, concentrando o meu olhar para o teto. - Ela deve ser uns... - Suede alisou os meus cabelos, retirando as camadas de um cabelo mais longo e colocando-as para frente, por sobre meus ombros. - Uns 10 anos a menos do que você. - eu arregalei os olhos, surpresa.
- Seu amigo virou pedófilo, por acaso? Eu ainda nem fiz trinta! Isso quer dizer...
Os movimentos rápidos de Chay não me permitiram detalhar a cena, eu apenas me vi rapidamente de pé, em sua frente, enquanto ele me segurava pelos pulsos.
- Exagerei um pouco então. Ela tem vinte e dois anos. - Ele riu tão perto de mim que pude sentir seu hálito, de talvez um Malboro de canela, calando a mim e ao meu corpo dividido. Nossos olhos brigavam em silêncio; eles poderiam estar rasgando as roupas um do outro, mas era apenas contato visual. Ele inclinou a cabeça de modo quase imperceptível, e desviou rapidamente o seu olhar para os meus lábios, e novamente retornou para os meus olhos. Ele exalava a pura vontade que havia contida no seu corpo durante todo esse tempo. E aproveitava a minha indefinível estática para diminuir ainda mais a distância entre nós dois.
Eu esperava a visita de Chay, era prevista, e, por isso, num impulso de capacidade estrondosa (ou talvez pensamentos que se fixavam em outro homem, inconscientemente), consegui fechar os olhos e rir de lado.
- Você é previsível, querido. - disse-lhe, soltando meus pulsos. - Impressiona-me todo esse teatro pela morte de Emily para depois vir arrastar-se para mim. Era o que ela menos queria...
- Não. Emily queria que estivéssemos os três separados. - Chay adquiriu uma posição mais séria. - Mas isso é simplesmente impossível. Eu a amo, Lua.
- Eu sei que você amav... - entre minha fala percebi a asneira que estava para deixar fluir. Franzi o cenho. Ama... a mim? - Não Chay, você nem sabe o que é o amor. Olhe só para você. - eu neguei com a cabeça, afastando-me dele e pegando meus papéis, organizando-os na pasta escarlate. - Eu poderia te dar uma noite, apenas, de puro sexo e poesia. Porque é isso que você deseja, e não o amor. Não o amor. E eu nem sei se essa noite existirá, pois eu sim, eu amo, e eu não sei quem sou eu amanhã. Instabilidade, meu querido amigo, é o primeiro sintoma. Eu não sei ser certa porque eu amo.
- Quem? O Aguiar? - Chay gargalhou, como se nenhuma das minhas palavras o tivesse ferido - Ele te trocou por uma mais jovem. Oi, Lua, realidade. Pare de viver de seus "achismos". Thur estava aqui, ele te viu e o que foi que ele fez? Uma aposta. Nada mais. O que são vocês, crianças?
Minha vez de ser a fera ferida. Coloquei a pasta contra o peito e a bolsa nos ombros. Olhei-o nos olhos da forma mais feroz e transtornada possível.
- És apenas uma perdição. - disse convicta. - Hoje não, Chay. Agora saia daqui, antes que eu mude de idéia sobre manter-me calma.
E assim ele o fez. Saiu ainda com um sorriso no rosto rebelde, mandando um 'adeus' com uma das mãos de anéis prateados. Encarei-o com o rosto sério, lutando para não sorrir de volta, e deixei a sua silhueta sumir da minha vista. Olhei para o resto do escritório, que agora tinha o meu design estampado. A elegância e a formalidade em cada ponto do lugar; e ainda a minha pequena sala, feita ali num espaço que eu acabei anexando à revista. O vidro fumê fazia com que eu tivesse completa visão de todos, sem que os outros ficassem a me vigiar. Dispensei cortinas por isso.
Eu estava com tanta raiva de Thur naquele momento, que o acesso do meu corpo ao ódio puro fez com que minhas mãos e lábios tremessem; e uma vontade de chorar possuísse-me. Trocar-me por uma mais nova? Não seria possível. Eu tinha plena certeza de que aquele homem me amara, e me amava; desde quando pus meus pés naquela sala e encarei o seu rosto rígido. Como ele pôde...? Como eu pude? Repetir o mesmo erro do passado, e achar que aquelas três palavras realmente valiam de alguma coisa.
Eu te amo: Bull shit.
O caminho para meu novo apartamento em Londres fora calmo, visto que a noite não trazia muitos carros para a rua. Dentre todos os cheiros possíveis de serem encontrados no meu carro, eu ainda sentia perfume masculino e Malboro Red, tradução: Chay. Ele ainda estava ali impregnado, como uma sanguessuga, retirando minhas forças. Seria tão fácil ceder a ele, perder-me em seus braços, e principalmente com essa... Paige entre mim e Thur. Tão fácil ceder à sua sedução, à beleza estonteante, às mãos fortes que seguraram meus pulsos. Eu perderia tudo se cedesse à perdição, simplesmente. Perderia até a graça de brincar.



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