CAPÍTULO 5 p.1-
SÉPIA
Havia muito mais do que ciúme, havia inveja, corroendo-me a cada passo da garotinha na minha frente, abraçando o MEU homem. Aliás, bom frisar, meu HOMEM. O que aquela criança fazia no meio de adultos mesmo? Transbordando aqueles sorrisos inacabáveis, aquela inocência saturada, aquele jeito meigo demais, aquela pele abençoada pelo colágeno da jovialidade. A cada segundo que passava, eu me culpava, mesmo inconscientemente "Ele me trocou por uma mais nova, por uma mais nova."
Minha mente otária me culpava. Sabia que ele não a amava, tinha certeza daquilo. Mas, se um dia ele me disse a verdade com aquelas três palavras, por que me deixara para trás? Por uma aposta? Por orgulho? E a mais terrosa infelicidade, eu tinha de admitir, era que eu estava sendo tão orgulhosa quanto. Digo, eu não havia feito nada desde então, simplesmente nada. Apenas me sucumbia no meu próprio trabalho, ocupando a mente com qualquer coisa que não fosse aquele sentimento absurdo de ciúmes, que se proliferava em mim como moscas no lixo. Talvez ele me amasse, eu o amasse, e nós fôssemos apenas duas bestas estupidamente teimosas.
Eu sabia que não estava sendo uma boa atriz. Não estava escondendo de forma alguma minha infelicidade por estar cada vez mais longe do Aguiar. Por isso, forcei-me a sair mais do ambiente de trabalho na revista e comecei a participar das transações fora do escritório; só para não ter que olhar para aqueles olhos... Aqueles olhos que um dia, tão sinceramente, disseram que me amavam. Senti-me ridícula. Infeliz aposta, medíocre Lua e... Insuportável Paige. Já era a sexta vez naquela semana que ela tentava fazer contato comigo. Amizade. AMIZADE? Eu vou acabar ligando para o serviço da Super Nanny, e tirá-la da minha frente antes que eu cometa um crime hediondo.
- Lua, minha querida, você não vai acreditar quem eu conheci hoje! Meu professor de Design gráfico, Victor Hugo, disse que te conhecia. Que fora seu colega na faculdade e-
- Como é? Hugo? - Interrompi-a bruscamente, finalmente dando sinal de que a ouvia. - Um irlandês?
- Sim, ele mesmo. Nossa, apesar de coroa, um pedaço de mal caminho... Alto, forte, louro, tem uma cicatriz na sobrancelha que só deixa ele mais sexy que o normal. Todas as meninas da Universidade são loucas por ele. - disse-me Paige. Estávamos na máquina de café, enquanto eu tentava embriagar-me de meu vício em paz e ela viera, como eu já frisei, na sexta tentativa de uma amizade. Olhei-a nos olhos pela primeira vez naquela semana, o que pareceu assustá-la de início.
- Sei quem é. - Eu disse, sentindo meu estômago revirar com as lembranças de Hugo, as quais vieram à minha cabeça como o flashback de um filme em sépia. Peguei o meu café preto e adocei-o rapidamente, passando a cheirar e assoprar, enquanto encontrava o caminho para as cadeiras da pequena cafeteria.
- Ele mencionou que eu era muito parecida com você. Só que você era mais baixa e curvilínea; que os cabelos eram idênticos, só que mais curtos... Além de ser mais rabugenta.
- Eu nunca fui um doce de pessoa, Paige. - sorri-lhe irônica, tomando o meu primeiro gole de café, em tom de quem não quer conversa. Ela sentou-se na cadeira à minha frente, insistente.
- Thur disse que você é mais sociável do que aparenta. Chay concorda.
Faltei cuspir o café fora com o comentário, mas me contive por pouco. O que diabos aquela garota pretendia com aquela conversa mesmo?
- E você veio aqui conferir se é verdade? - perguntei-lhe sem rodeios. Ela arqueou as sobrancelhas, pega de surpresa. - Poupe seu tempo, Paige. Se você quiser achar doçura, vá à uma bomboniere.
Paige riu. Miserável. Tinha a risada de uma hiena.
- Professor Hugo disse-me que você diria algo assim para mim, e que não era para eu desistir, porque sua amizade é extremamente importante.
Eu já estava a dez segundos de ficar descontrolada e realmente chamar uma babá para aquela garotinha metida, só que a babá seria a segurança da London Music. Uns grandalhões para ensinar uma lição a ela. Ou melhor, eu poderia fazer isso com minhas próprias mãos. Com a violência crescendo em mim de modo quase incontrolável, fechei os olhos e tomei ar, inflando as narinas como um dragão prestes a soltar fogo. Eu queria responder-lhe que era óbvio que minha amizade era importante, visto que eu era herdeira de uns riquinhos, conhecidos como meus pais; uma fortuna com zeros à direita que a pobre Paige nem sonhava que eu poderia possuir. Ninguém sabia do meu dinheiro a não ser eu e Louis. Aliás, eu, Louis, e o irlandês Victor Hugo, meu ex-namorado da faculdade.
Engoli o resto do café existente na caneca, colocando-a sobre a mesa. Senti a minha garganta arder com a temperatura do líquido, mas eu não ligava.
- Preciso voltar ao trabalho. Vê se procura algo útil para fazer, garotinha.
Assim que me virei, dei de cara com o Aguiar, olhando-me nos olhos daquele jeito invasivo. Não suportei. Baixei meu olhar, e desviei do seu corpo ali estático, dando passos apressados para o meu escritório, e ali me trancando. Passado atormentando, intermitente.
Saber que Paige estava seguindo meus passos até no ramo profissional não me trazia nenhum conforto. Que tipo de Deus põe duas pessoas tão semelhantes num mesmo mundo? Eu a odiava. Com todas as minhas forças, eu a odiava. E agora mais ainda. Na mesma Universidade? De todas as Universidades de Artes do mundo ela tinha de estudar na minha? E Victor Hugo, aquele... Infeliz. Por mim nunca mais ouviria aquele nome. Bom saber que se tornou apenas um professorzinho, enquanto eu mandava e dizia numa empresa de porte. Ainda assim, ele terminou como professor de Universidade, os quais têm certo prestígio. Por mim ele estava ensinando o ABC para os analfabetos da África; sem qualquer prestígio, com muito trabalho a fazer e real utilidade no mundo.
# 9 anos e 11 meses atrás #
Eu pertencia ao meu próprio medo, e a idéia de fugir finalmente havia se tornado realidade. Estava cansada de lidar com coisas tão complicadas, momentos de histeria familiar, a solidão, também, não apaziguava as minhas dores. Sempre vivi à espera de alguém que, um dia, pudesse me salvar. Salvar-me de mim mesma. Salvar-me do meu maior medo.
A Inglaterra me parecia o lugar perfeito para começar uma nova vida, onde os meus desejos fariam alguma diferença. Para começar, eles falavam inglês; segundo, era uma das capitais mundiais da moda, e um lugar conhecido por trazer à tona pessoas de valor grandioso para toda a humanidade. Aquele país tinha um oceano inteiro de distância do que eu mais odiava no mundo: o meu próprio passado. Eu estava bem. Finalmente me sentia bem.
O dinheiro do carro de Louis não me serviria por mais de três meses. Eu era apenas uma garota, dezoito anos, sem experiência de trabalho e com um talento que eu não conseguia julgar como brilhante, talvez útil, mas nunca o suficiente para as expectativas do mundo. Dei entrada num apartamento um pouco mais afastado da cidade; uma loucura, visto que com ele iria embora todo o dinheiro que possuía. Eu só havia conseguido tão singularidade ao comprar um apartamento sem renda fixa, pois havia impressionado os últimos donos. Eram um pai e um filho, dois irlandeses, seus nomes, Armand e Victor Knox. Não pude deixar de notar a beleza de ambos, e especial do filho, que não deveria ser mais velho que eu - isso se não tivesse a minha idade. Foram argumentos sem base os quais dirigi aos Knox, porém pareceram fazer algum sentido, já que no final, eles aceitaram a minha oferta. Metade do dinheiro que possuía tratou de funcionar como um 'sinal', uma entrada no apartamento. Era pequeno para dois, mas o suficiente para mim. Possuía dois quartos, uma suíte, e um espaço em que se fazia a sala e a cozinha; a lavanderia era apenas uma varanda escondida a qual se penduravam as roupas e uma pequena máquina de lavar que ficava escondida entre os móveis. Para mim estava tudo perfeito.
Passou-se uma semana para que eu me estabelecesse naquele lugar, sem qualquer contato humano (senão com os entregadores de pizza), e eu fiquei trancada naquele apartamento. Aproveitei os antigos móveis, joguei um colchão no chão de um dos quartos para me servir de cama, e usava meu urso-polar de pelúcia que havia ganhado numa promoção da coca-cola (era o que dava ser uma consumidora ativa) como travesseiro.
Se cada lágrima minha fosse uma gota de chuva, aqueles sete dias se passaram chuvosos como a própria cidade de Londres. Era meio debilitante aquela chuva contínua - não só a chuva dos meus olhos, mas também a que vinha da cidade. Eu não estava acostumada com aquela umidade toda, nem o meu guarda-roupa. Eu teria de sair, eu precisava sair daquele apartamento e fazer alguma coisa! Mas eu me sentia triste e até mesmo gorda a toda vez que comia uma pizza tamanho família sozinha; sentia-me suja e sobretudo solitária. Mais do que em qualquer outro momento da minha vida.
Queria abraçar alguém, mas não havia nada além do urso-polar para ser abraçado. Queria chorar no ombro de alguém, mas dos amigos que tinha, todos estavam a um oceano de distância.
Em uma de fênix, acordei naquele dia com um raio de sol que atravessou a janela direto aos meus olhos, e eu parecia renascida. A primeira noite sem pesadelos sobre o que eu havia visto, antes de vir para cá. Sem Louis e aquelas barangas que frequentavam MINHA casa, esquecendo-se da noção de vestuário apresentável. Sem aqueles aproveitadores baratos que tentavam convencer meu tio a me dar para algum orfanato - para que assim eu pudesse ser adotada e minha herança, vindo junto. Dinheiro era uma coisa complicada. Mas eu havia renascido, no primeiro dia ensolarado em Londres.
Vesti uma roupa qualquer, a que mais me agradasse, e saí porta afora. Eu ia procurar emprego. Com os meus talentos e currículo impecáveis, alguém teria de ceder-me algum lugar para trabalhar. Peguei o metrô sem nem saber para onde ia, e desembarquei. Era engraçado aqueles ingleses, de sotaque puxado, falando rígidos ao meu redor. Eu sentia olhares sobre mim, e sorria para quem quer que olhasse nos meus olhos. Eu era outra pessoa, eu havia me tornado outra pessoa, eu quis me tornar outra pessoa. Ciscar o passado, ciscar o maldito medo. Era apenas besteira, coisas ruins da vida que eu supervalorizava: como o fato de nunca ter tido pais, irmãos, família. O fato de nunca ter namorado, porque sentia nojo, porque para mim namorar era o que Louis fazia; e aquilo era realmente nojento. Bem, pelo menos do jeito que ele fazia. Eu tinha de esquecer aquilo. E foi isso que eu fiz.
Foco, foco: Eu preciso de um trabalho. Mas em que trabalharia? Traduzindo inglês para francês ou português? Tocando piano em algum pub? Vendendo roupas numa filial Marc Jacobs? Eu realmente não sabia. Foi então que eu avistei. Aquela frente de Universidade, com uns estudantes nada convencionais a entrar e sair, com rostos satisfeitos. Eu li baixinho a placa que indicava o nome do lugar: University of Creative Arts. Como eu desejava fazer parte daquilo. Mas como poderia? Sem dinheiro, com prestações de um apartamento a serem pagas, uma nada no meio de tudo. Sempre me engracei pelas artes, apesar de ter bom desenvolvimento na matemática.
- Senhorita Blanco? - ouvi uma voz masculina proferir atrás de mim. Franzi o cenho e virei-me para ver quem era, já numa posição defensiva. Qualquer coisa eu ia usar o boxe para alguma coisa útil: gancho, gancho, up, cruzado, direto. - Sou eu, Victor Hugo Knox, aquele que você comprou o apartamento...
Uns cabelos louros presos com um pequeno elástico, dourados, quase de uma cor de mel, estavam bagunçados; eram olhos verdes como uma esmeralda, brilhando como diamante lapidado. Knox, e que garotão! Alto, ombros largos, camiseta dos Guns n Roses e jeans surrados. Um momento para um suspiro mental. Ah...
- Oh, claro. É um prazer vê-lo novamente, Senhor Victor Hugo. - falei com um excesso de formalidade, ainda a admirá-lo.
- Eu que o diga, senhorita Blanco. E dispense as formalidades, pode me chamar de Hugo. - ele disse com um sorriso impecável, com direito a dentes tortos que, de uma forma insanamente incrível, conseguiam lhe deixar mais sexy.
- Sendo assim, eu sou apenas Lu. - sorri-lhe também, um pouco tímida.
- Ok, apenas Lu. E então, o que fazes desse lado da cidade? - ele perguntou.
- Procuro emprego. - respondi sincera.
- Na frente da Universidade? - ele perguntou. Logo, meus olhos voltaram para aquela arquitetura que eu admirava.
- É... Sei lá...
- Bem, eu posso te ajudar aqui, se não se importa.
- Como? - perguntei confusa, virando-me para ele.
- Eu estudo aí. Faço Design, estou no primeiro semestre. Acho que posso até conseguir uma vaga pra você.
- Mas eu não tenho condições de pagar uma particular. E preciso mesmo é de uma fonte de renda. - Eu disse convicta. Hugo riu.
- Faz o teste, tenta uma bolsa. - ele falou, desviando o olhar do meu. Eu estranhei a sua risada, mas não comentei nada.
- É... Não custa nada.
O bom de ter feito tantos cursos na vida, e de passar tanto tempo no ócio, trancada num quarto, apenas a desenhar, fizeram com que eu conseguisse não apenas uma bolsa, como também um pequeno emprego dentro da própria faculdade. Agora eu estaria desde a manhã até o fim da tarde a ser útil: estudando e trabalhando. Quem imaginaria que eu, a garota 1001 utilidades, era herdeira de uma fortuna imensa? Sem aproveitadores, apenas amizades de verdade. E Victor Hugo sempre perto de mim, guiando-me, cuidando de mim como seu eu fosse um valioso vaso de porcelana.
Foi num domingo à tarde, durante uma seção de cinema, que nós ficamos pela primeira vez. E então começamos a ficar várias vezes. Ali, aqui... Não era exatamente um namoro, afinal, ele nunca havia proposto nada disso; mas tinha tudo que um namoro teria: Fidelidade, carinho, sentimento, consideração... Ou pelo menos eu achava que era assim.
Creditos: Fanfics Obession



Cara essa web tah ficano chata . Eu quero ação e por favor matar essa desgraçada da paige e faz a lu fazer alguma coisa com Suede e o Aguiar . Eu amo essa web e continua por favor beijoos
ResponderExcluirTaa meia parada mais continua ++++++++++++++++++++++++++++++
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