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sábado, 26 de abril de 2014

Boss 2


CAPÍTULO 5 p.2- SÉPIA


(...)

Assim que cheguei a Londres, mantinha meus cabelos em um corte Chanel geométrico, que era moda naquela época. Então o tempo passou, acabei cedendo à pressão de Hugo, e deixei crescer. Quando já estava para parecer uma Rapunzel, finalmente cortei-os, e finalmente percebi quanto tempo havia se passado. Três anos. Eu iria me formar.
Estava no meu apartamento e arrumava os cabelos juntamente com Cassandra, uma nova amiga da faculdade, que conhecia há não muito tempo. Anos 90, eu havia adquirido um estilo muito mais despojado e insano. Meus cabelos sequer foram penteados para a formatura, eu apenas os prendi numa trança-raiz com alguns pingentes, deixando alguns fios rebeldes escaparem. Meu vestido era preto e cheio de partes abertas, ousado, feito por mim mesma e especial para aquele dia. Não que fosse a primeira vez entre mim e Hugo, mas eu queria algo especial, diferente, para o dia da formatura. Eu queria tê-lo como meu namorado, oficialmente, tinha quase certeza de que ele iria propor naquele dia.
Cassandra também estava linda com seu vestido dourado recém comprado na Versace. Os cabelos castanho escuros e lisos bem penteados para trás e aqueles olhos cinzas de dar inveja maquiados belamente. Hugo iria nos pegar a qualquer minuto de carro, com o seu Ford novo. Não esperamos muito para ouvir a buzina do carro e sairmos estonteantes a bater nossos saltos sobre o chão, ao encontro do carro.
- Você está mais linda do que já é. - Hugo sussurrou no meu ouvido assim que cheguei ao carro, beijando meus lábios com os seus úmidos. Estava também deslumbrante no smoking grafite, com a gravata folgada, e os cabelos, agora mantidos curtos, brilhando para trás com o gel.
- Você também, amor. - sorri-lhe carinhosa e me afastei, colocando o cinto de segurança.
- Cassandra.
- Hugo. - os dois se cumprimentaram com simples acenos de cabeça, para então Hugo dar partida no carro. 


#Flashback end#

Um extremo ódio me consumiu naquele momento de recordação. Por que diabos eu tinha de manter tais memórias? Por que, dessas coisas desagradáveis, a gente não pode simplesmente esquecer? E o flashback do filme da minha vida, montado em sépia, daquele modo grotesco, continuou a passar na minha cabeça; independente do ambiente de trabalho que me situava e da situação presente que me aturdia. Eu estava me culpando pelo passado naquele momento.

#Flashback - A formatura #

Cada minuto da colação era um minuto de tédio. Eu já tinha meus pés inquietos, minhas unhas cantando batidas estranhas no braço da poltrona, e aquela vontade de suspirar a cada cinco segundos.
- Amor, dá um tempo. Já vai acabar. - sussurrou-me Hugo, que também não estava lá muito calmo.
- Ah, claro. Precisam realmente fazer tantos agradecimentos? Daqui a pouco a Lindsay vai subir no palco porque o professor de história da Arte vai agradecê-la pelo tchrururu.
- Tchururu?
- Você acha mesmo que Lindsay, burra do jeito que é, ia conseguir passar em história da arte? Pelo amor de Deus, Hugo. Open your eyes.
- Ah... - ele riu abafado - entendi. Tchururu quer dizer sexo?
- Eu evitei a palavra, você que fez questão de dizer. - eu me envergonhei.
- Por que vergonha de dizer essa palavra? - ele estranhou, encostando a cabeça no meu ombro.
- Não tenho vergonha.
- Sei.
- Sabe mesmo. - eu falei convicta. - Mas também não precisa alarmar que a menina transou com o professor pra conseguir passar de ano. - sussurrei quase inaudível.
- Ah é... - Hugo levantou a cabeça, olhando-me de lado, daquele jeito extremamente malicioso (que aí sim, envergonhava) - Eu sei mesmo...
- Cala a boca, Knox.
Eu e Victor Hugo tínhamos uma relação concreta. Todos sabiam que estávamos juntos, e nós não precisávamos escrever na nossa testa: "Namorados". Mesmo assim, muitos nos olhavam de uma forma diferente, estranha e que chega a me incomodar certas vezes. Hugo dizia 'não ser nada', mas eu tinha sempre a pulga atrás da orelha.
Assim que acabou a colação, finalmente fomos para a festa. E aconteceu exatamente o que eu já previa acontecer: uma oficialização. A música que tocava era de Tears of Fears, Shout. Um sucesso da época. Nada muito clichê ou certinho, e ele apenas me deu um anel. Era ouro 18k, com dois pequenos diamantes. Nada de "Você quer namorar comigo?", apenas o anel e aquele sorriso maravilhoso. Beijei-o e abracei-o como nunca havia feito antes, tinha a certeza de que ele era o homem da minha vida; aquele que me tirara da sarjeta e me colocara de volta ao topo: formada, amada e querida.
Foi de repente que recebi uma estranha ligação. Eu conhecia o número, era Louis, o meu tio e ex-tutor. Não atendi, por obséquio. Hugo perguntou quem era, e eu respondi-lhe na mais pura sinceridade, contando-lhe todo o trajeto da minha vida. Apenas de repetir o nome Louis Blanco, os olhos de Hugo adquiriam uma cor estranha. Ele chegou a sorrir quando não devia, mas eu não tinha cabeça para lhe perguntar. Jamais esperaria uma ligação de Louis; e afinal, como ele descobrira o meu número? Automaticamente passei a ficar ressentida, e não desejava mais festejar ou comemorar nada.
Eu pedi um tempo para ir ao banheiro, e quando voltei de lágrimas secas, Hugo não estava mais lá. Passei a procurá-lo insistentemente. Eu só queria saber dele, mais ninguém. Foi então que eu o vi. Não sabia diferenciar as mãos dele com as da outra que ele agarrava.
- Puta que pariu. - xinguei alto para todo mundo ouvir. Logo as pessoas passaram seus olhos atentos e curiosos para o que acontecia no canto da boate. - O que diabos é isso, Knox?
Meu tom não era apenas de dor, mas de desprezo. Ser traída era a última coisa que eu achei que ia acontecer comigo. Talvez porque seria demais para minha cabecinha melodramática, o fim do mundo, talvez.
- Lu, eu posso explicar... - Hugo desgrudou da menina, que agora eu reconhecia: Cassandra. Foi então que fiquei mais revoltada ainda.
- Eu sei que você pode explicar. Dizer mais mentiras... - minha fala foi interrompida pelo celular que voltou a tocar. Louis. Foi impulso, e eu atendi. - Que inferno meu tio! Pare de me ligar, nós não temos mais nenhuma relação! Fique com o inferno do dinheiro.
- Na verdade, querida sobrinha, eu só liguei para te dar os parabéns pela formatura. E quanto ao jovem que você escolheu, eu sempre soube que não ia dar certo. Ele é um dos meus. - ouvi a risada sarcástica de Tio Louis do outro lado do telefone. Eu quis desligar, mas me contive.
- Você conhece ele, coroa?
- A mãe dele, Bridigitte, é a minha nova esposa. Eu e o pai dele negociamos há algum tempo.
- Negociaram mulher?
- É. Sabe como é... - ele riu.
- E como você sabe tudo da minha vida? Andou me seguindo, seu demoniozinho? - eu falei nervosa ao telefone.
- Não, Victor reportou tudo para mim, assim que ouviu seu nome, gatinha. Você é previsível. - Louis falou. E dessa vez eu não pensei duas vezes em desligar na cara dele, quase quebrando o celular com as minhas próprias mãos. Olhei para Victor Hugo, que ainda tinha a boca melada com o batom de Cassandra. Cheguei a ter pena dele, realmente tive. Claro que não era por nada que ele fez, mas por algo que eu estava prestes a fazer.
- Hugo, chegue mais perto. Deixe-me limpar sua boca. - eu falei fingindo calma. Ele arregalou os olhos, surpreso, e deu passos lentos para mais perto de mim. - Venha, amor, venha. - Encorajei-o. Ouvi uma pessoa perto de nós, comentando algo como "Eu sabia que ela gostava de ganhar chifres... Para ficar com um cafajeste com o Hugo!". Apenas me deixou com mais raiva. Todos sabiam da má fama de Hugo, menos eu.
O sangue já havia descido para o meu punho, e eu o apertava bravamente. Em uma das mãos, meu celular (que era um Motorola gigantesco) acabava por machucar. Assim que vi Hugo na distância perfeita, larguei o celular no chão e me posicionei rapidamente para um movimento rápido.
- Gancho, gancho, up, cruzado, direto. - falei enquanto executava os golpes de boxe. Minha raiva era tamanha que eu havia ganhado força suficiente para deixar Hugo no chão depois de apenas cinco golpes. Olhei para ele de cima, observando o seu supercílio sangrar, a boca inchar do lado direito e ele se contorcer para amenizar a dor na barriga. - Otário. Agora você vai lembrar de mim para sempre. - sorri irônica. Retirei o anel que a pouco havia ganhado e joguei-o sobre ele. - Aprecie a sua vidinha desprezível, cafajeste.
Virei-me.
- Mas a gente nem namorava! Eu não te traí, Lua. - ele resmungou, sendo levantado do chão pelos amigos.
- Então imagine como seria a sua dor agora se, nesses três anos que se passaram, estivéssemos namorando. - Soltei-lhe um olhar assassino e saí dali com a classe de uma mulher traída, mas muito insana. Eu sabia que assim como Hugo iria carregar a cicatriz na sobrancelha, eu iria carregar a cicatriz no coração. Muito pior. Muito pior... 


# Flashback end#


Creditos: Fanfics Obession

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