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terça-feira, 8 de abril de 2014

Boss

Capítulo 14 - O sentido da verdade.


- Há um dez anos... Não havia Izzy, nem você, era apenas nós três. Éramos três adolescentes loucos. Eu tinha dezessete, Thur dezenove e Chay havia completado vinte naquele mês. Modestamente, éramos realmente lindos. Lindos e loucos. Na verdade, eu e Chay éramos os piores; talvez porque eu seguia os seus passos. Morávamos os três em um pequeno apartamento no subúrbio de Londres, era uma bagunça. Thur vivia trazendo garotas para o quarto dele e, bem, como o cafajeste que era não podia culpá-lo. E eu e Chay...
- Você e Chay tiveram um romance? - perguntei-lhe assustada.
- Eu e Chay nos drogávamos, bebíamos como loucos e depois, bem, acho que eu ficava muito louca para lembrar, mas acabávamos nus na cama dele.
- Ok, ok, pára tudo. Você e o Chay se drogavam na adolescência?
- Pare de me interromper, merda. - ela reclamou, colocando mais sorvete na boca. - Vou continuar a história. - falou de boca cheia.
- Estou de boca calada.
- Mas assim que entrei na Universidade, e lá tive meu primeiro namorado de verdade, esqueci completamente de Chay e das besteiras que fazíamos. Como eu morava na Universidade também, fiquei completamente sem contato com ele. Thur me ligava vez ou outra, perguntava como eu estava; ele é meu primo, não sei se você sabe. Depois dos três anos de Faculdade de Administração, eu saí da Universidade. Liguei então para o suposto celular de Thur, porém, quem atendeu foi Chay. Nós conversamos horas a fio, contei-lhe que não bebia nem fumava mais enquanto ouvia sua risada alta pelo telefone. Ele dizia que com ele acontecia o mesmo; que estava namorando uma garota, eu lembro o nome dela, Mona Turner. Terrivelmente chata, devo acrescentar. Em comparação, ela era potencialmente mais chata do que Izzy.
- Credo!
- Nem me fale. A vida seguiu normalmente até... até o ano retrasado. Foi quando eu perdi meu emprego na antiga Empresa em que trabalhava, ela faliu, eu fui junto. Meus meninos não tinham como me contratar como administradora, isso é, com meu currículo em si. Por isso esse trabalho como revisora; é só fachada, eu ajudo na administração por trás de tudo. Juntamente com Chay, que tem pós em Administração. Quando cheguei à London Music, eu a percebi, e como não perceber? A grande Lua, designer maluca e mandona. Cada vez que você chegava de manhã e cumprimentava todo mundo, eu via, da pequena sala no depósito, seu glamour ao responder um simples 'Bom-dia'. É, Lu, eu lembro de você. - Emily sorriu. - Izzy era a da vez, enquanto Thur continuava o mesmo. Foi naquele ano que o câncer veio perturbar minha paz. Fui ao médico e me internei durante seis meses para a quimioterapia. Você deve se lembrar dos dias em que você trabalhou dobrado no sábado porque uma funcionária estava doente.
- Ah sim! Claro que lembro. Não sei como não me recordo de forma alguma do seu rosto... Você vivia enfurnada no depósito durante os dias da semana?
- Sim, e enquanto você revisava os desenhos no sábado de manhã, eu chegava logo depois. Acho que sofremos aquela história de Encontros e Desencontros.
Emily havia parado de falar para finalmente finalizar o pote de sorvete. Enquanto isso, eu parecia absorver as informações que me foram dadas. Chay e Emily num romance adolescente, envolvidos com drogas. Os super-heróis e seus passados sujos. Mordi meu lábio inferior com certa força ao chegar à minha conclusão: Nada é o que parece. Fato fatídico. Mily deitou-se na cama e eu a acompanhei. Fiquei em posição fetal enquanto ela mantinha a barriga para cima e o olhar fixo ao teto.
- A quimioterapia não deu resultado. Meu câncer no fígado só daria jeito caso eu fizesse a cirurgia e o removesse, fazendo então um transplante. Fígados são difíceis de achar. O único que me arranjaram não tinha uma boa saúde, mas pelo menos as células não eram cancerígenas. Transplante feito, eu abri um sorriso e esperei que o médico me desse uma boa notícia. - Emily virou seu rosto para mim. - Desculpe o palavreado.
- Que...
- Mas aquele filho da puta nojento, disse-me que eu não tinha muito mais que um ano de vida. Disse-me para tentar outra sessão de quimioterapia. Jamais! Jamais! Aquilo era horrível, eu não ia me submeter aqueles vômitos de cinco em cinco minutos, a sensação de derrota! Eu era Emily, a super-mulher. Eu sou super. E não era aquele médico que ia me dizer o contrário. - Ela suspirou - Em dois dias eu saí do hospital. Estava parecendo um pinto com o pouco cabelo que crescia do meu coro cabeludo. Era novembro. Com o dinheiro que me restou, comprei uma peruca ruiva horrível, mas que quebrou o galho, principalmente por ser idêntica ao meu antigo corte. Voltei à minha casinha horrorosa, liguei pros meninos, disse que eu tinha voltado de viagem.
- Você disse a eles que tinha viajado durante todo esse tempo; ou seja, eles não sabem de nada do câncer. Por isso não têm a mínima idéia do por quê do aborto... Não, muito pior. Eles não sabem de nada. Simplesmente nada. E depois vocês se dizem melhores amigos. - eu ri - Super divertido. Então você voltou a trabalhar como uma ruiva.
Emily me lançou um olhar de censura o qual eu ignorei completamente.
- Pois bem, e o médico foi tomar banho, porque aqui estou eu, viva e linda. - Ela me disse sorrindo largamente.
Uma dor terrível me atingiu o peito e, de repente, meus olhos passaram a arder como a pele do demônio em água benta. Eu solucei. A respiração passou a acelerar e, num súbito, uma água doce caiu dos meus olhos até tocar meus lábios. Choro.
- Lu, por que você está chorando? - Emily perguntou. - Olhe, eu estou bem. Já disse que sou super.
- Emily, minha amiga... Continue a história, e a gravidez? Quem foi? Como aconteceu?
- Foi... Um amigo. Momento de fraqueza, nada demais. Três semanas atrás, como já lhe disse
- Quando o amigo lhe viu, sentindo aquela dor, gemendo daquela maneira, eu via o desespero nos olhos dele. A culpa. 
And I hurt myself, by hurting you.- cantei com a voz mansa.
- Você tem a terrível mania de associar as coisas à uma música. Isso assusta.
- Assusta principalmente quando o que eu canto é exatamente o que acontece. Ou a música parece encaixar com o momento. - disse-lhe - Agora tudo faz sentido... Mas não foi apenas um deslize, certo? Vocês não conseguiram se segurar, principalmente visto o que aconteceu no passado, na adolescência.
- Foi tão bom. Nós não queríamos parar. Chay é bonito demais para eu deixá-lo com uma chata qualquer. Thur descobriu.
Parei um tempo para pensar.
- Foi... Foi Thur que a colocou na mesma limusine que eu, no dia da festa, lembra?
- Ele tinha me dito que se eu quisesse crescer na empresa, precisava falar com você. Mas aí nós conversamos, tudo mudou.
- Thur sabia da sua relação com Chay, e também sabia que eu tinha queda por bonitões. Com você ao meu lado, Izzy no caminho, ele sabia que eu jamais cogitaria qualquer coisa com o Suede.
- Mas tem algo errado nessa história...
- O quê? - perguntei assustada.
- Chay não deixou de ficar no seu pé por motivo algum. Fosse eu, Izzy, ou a pressão de Aguiar.
- Eles estavam brincando comigo. BRINCANDO COMIGO, PORRA! - Levantei da cama com raiva.
- Ei, ei, calma. Você não está sozinha nessa. Estamos no mesmo barco. - falou calmamente, fazendo uma trança no cabelo louro.
- E POR QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ CALMA?
- Ué, eu tenho você no meu time, para que diabos ia me estressar?
Sentei-me na cama novamente, cruzando os braços.
- Eles que me aguardem. - disse-lhe séria. - Agora eu preciso de doces e café, muito café. Você fique aqui quieta que eu vou sair para comprar...
- Aqui tem. No armário, terceira portinha à esquerda. E o café está na estante, você consegue se virar, né?
- Por obséquio. - respondi-lhe. - Emily, parabéns, você vai participar do meu plano anti-chefes-gostosões.

Arthur havia pré-meditado tudo para me conhecer e me manter, o que explicava o porquê de ele ter aturado as provocações do Senhor Suede.
Chay tinha um caso secreto com Emily, eles quase tiveram um filho se não fosse pelo câncer que atacou o útero da jovem Emily.
Se eu achava que tinha algum poder, a verdade é que eu era realmente uma funcionária, namorada do chefe, e não tinha bulhufas; senão um passado misterioso e horroroso.
O inferno vos aguarda.



Creditos: Fanfics Obession

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