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sábado, 3 de maio de 2014

Boss 2

CAPÍTULO 8 p.1- TRIO, TRINDADE, TRÍPLICE


Era domingo, eu estava cansado, mas tinha que ver o que estava acontecendo com meu amigo Chay. Seu olhar estava tão distante que até eu, na insensibilidade masculina, passei a notá-lo como um homem triste - de novo. Seguir até sua casa foi inevitável. Paige também havia pegado um resfriado, o que a forçou a voltar para casa. Os cuidados da família quando se está doente são praticamente vitais, e foi isso que eu disse a ela quando deixe-a em casa. Também pensei nisso quando fui ao encontro de Chay, na antiga casa de Emily. Ele estava estranho, triste... Quem sabe doente? Eu era a única família que ele tinha, pelo menos aqui em Londres, e eu tinha certeza de que ele jamais procuraria seus pais ou irmãos quando estivesse se sentindo mal. OChay que eu conheço iria guardar tudo para si, e procurar alguma válvula de escape, provavelmente contra a sua saúde, para curar-se sozinho.
Ao tocar a campainha, eu o vi exatamente do jeito que imaginava: Um copo de whisky na mão, o cigarro no outro, e uma cara de zumbi com olheiras dignas de um morcego. Ele estava perdido.
- Thur. - ele me cumprimentou, tentando sorrir. - Não esperava sua visita... - disse, olhando envergonhado para os trajes. Vestia apenas uma samba-canção, daquelas que provavelmente a mãe havia lhe dado, com corações coloridos estampados.
- Oi Chay. Posso entrar?
- Claro, claro... - Chay abriu passagem para mim. Ele cheirava a álcool e sujeira; é, eu teria um longo dia pela frente cuidando do bebezão.
Meu amigo fechou a porta e me chamou até a cozinha, onde ele havia montado uma espécie de minibar. A casa de Emily sempre fora muito pequena, não dava para ter muitas coisas. Tudo continuava o mesmo: o crochê cobria o sofá, as cortinas continuavam no tom pastel morto, as cadeiras da sala pareciam nunca ter saído do lugar... Até o cheiro dela, eu podia sentir. Como diabos Chay vivia num lugar que mais parecia um cemitério? Não havia a felicidade de Emily morando ali, apenas o seu fantasma. Não era mais cheiro de biscoitos que eu sentia, nem do suco de uva que ela dizia ser vinho; era apenas álcool, sujeira e o perfume de Emily pairando no ar, como se tivesse se fixado àquela casa de tal forma que nem o tempo, nem a sua morte conseguiram apagar o cheiro.
- Chay, eu estou preocupado com você, cara. - disse-lhe, sentando em uma das cadeiras da cozinha, enquanto ele enchia novamente o copo de whisky.
- Preocupado comigo? Mas por quê? - Chay perguntou rindo.
- Você anda com essa cara de morto-vivo. Eu não o vejo pegando mulher há tempos. Você voltou a beber e a fumar que nem um doido. Está vivendo num cemitério, e por cemitério eu digo essa casa. Isso aqui me parece tão...
- Morto? - perguntou tirando um trago.
- Sim.
- Emily... - Chay disse. - Eu não consigo superar o que aconteceu com ela, só isso.
O que acontecia com Chay quando ele bebia era bem simples: Ele não tinha papas na língua.
- Procure outra mulher. - eu disse vagamente.
- Lua? Ela não pode ser minha, Aguiar.
- Quando eu disse outra mulher não me referi a Lua...
- Mas ela seria a única, alguém com quem eu tivesse vontade de montar uma vida, uma família... - Chay disse com os olhos fixos no horizonte. Eu sentia meu coração doer, quase como o impacto de uma pedra num pote de argila: ainda estava tudo muito quebradiço aqui dentro. - Mas Lua não é para mim. Ela é minha amiga, e mesmo com a experiência que nós tivemos...
- Experiência? - eu perguntei, sentindo meu sangue ferver.
- Sim, de domingo para segunda, no 41 Hotel, quando ela ficou lá para a reunião, conferência, sei lá o que ela queria com aquele bando de gente. - disse ele calmo, bebendo mais um gole do seu whisky e fazendo uma cara estranha.
- Como você me diz uma coisa dessas, assim, do nada? Você não sabe que...
- Porra, você pode esperar eu terminar de contar as coisas? - eu me assustei, balançando a cabeça em sinal positivo. - Ótimo. Eu perguntei a ela porque ela tinha feito aquilo, chamado-me, seduzido-me... Perguntei se era por causa de você. - eu o olhei mais ansioso que nunca. - Ela disse que sim.
Alívio. Respiração de volta ao normal. Coração batendo em intervalos regulares.
- O que mais ela disse?
- Olha minha cara de pombo correio. - ele falou com uma cara entediada e bêbada, que me fez ter vontade de rir. - Que inferno vocês dois. Fico não fico, quero não quero, vamos apostar! - Chay falou que nem uma bicha afetada. - Parecem duas crianças! Vai logo na casa dela, pergunta a ela sobre a porra do passado dela. Você não sabe nada sobre ela, mas também não faz nada para descobrir. Você tá apaixonado por alguém que você nem sabe quem é! O motivo de ela ter ido para Nova York, de ter voltado milionária e mandando no caralho da nossa empresa. A LONDON MUSIC ERA NOSSA! NOSSO TRABALHO! A DOIDA RESOLVEU 'PEGAR EMPRESTADO'! E...
Chay faltou a voz, e bebeu mais da sua bebida maldita para limpar a garganta. Sua cara era de quem ia me assassinar a qualquer momento. O corpo encostado no bar improvisado estava contraído de tal forma que eu conseguia ver suas veias saltando dos braços e pescoço. Chay estava vermelhinho. Tragou mais uma vez o cigarro, jogando-o pequeno no cinzeiro, apagando. - Eu também te amo, Chay, mas pelo amor de Deus, se acalma. Você tá pior que minha sogra. - eu disse rindo, confortável, como se não tivesse acabado de receber a maior lição da minha vida.
- Você é um desgraçado, Aguiar. Larga Paige, ela é muito nova pra você, você não a ama, e Lua cara, AQUELA MULHER MARAVILHOSA TÁ ESPERANDO POR VOCÊ. Não é por mim, é por você.
- O que te faz ter tanta certeza?
- A mulher que me queria está morta, Thur. A mulher que eu amei e me amava hoje está morta e eu nunca apreciei o que nós tínhamos. Como poderia saber que o amor era algo tão importante? Por mim eu estaria morto com Emily.
- Chay... - suspirei - desculpe-me. - disse levantando-me da cadeira e me aproximando dele. Chay tinha a cabeça baixa, praticamente derrubava o líquido do copo de tanto que suas mãos tremiam.
- Minha única chance era o que eu tinha com Lu. Mas com ela é luxúria, nada mais. E ela estava certa, eu só precisava dela uma noite para nunca mais. - Coloquei meus braços ao redor do meu amigo num abraço forte, que amoleceu a ponto de derrubar de uma vez o whisky no chão.
- Eu vou levar suas palavras comigo, mas ouça o que eu tenho a dizer, my brother. Emily se foi, e nada pode mudar isso. A sua vida continua, você não pode simplesmente desistir e lamentar-se o resto da vida por um erro. Não pode, não deve, eu não vou deixar. Lembre-se dos bons momentos que você e ela tiveram juntos. - senti lágrimas no meu ombro. Chay soluçava e chorava como uma criança que caiu da bicicleta. - Sh, não chora, cara.
- Chorar é coisa de maricas, né? - ele perguntou com a voz arrastada.
- Uma vez alguém me disse, que um homem chorar é uma prova de bravura. A prova de que é realmente um homem, humano, mortal. - disse-lhe cauteloso, enquanto ele se afastava de mim e colocava as duas mãos nos meus ombros.
- Emily. - ele disse, referindo-se à autora da frase.
- Sim.
- Quando você chorava pelos seus pais.
- Sim.
- Você era estranho naquela época. - ele disse, com um sorriso bobo na boca e a cara toda lambida de lágrimas.
- Você também. - disse rindo.
Abraçamo-nos como dois idiotas. Eu também sentia vontade de chorar, mas a cara de pateta de Chay só me fez querer rir como uma hiena. Chegava a ser engraçado que encontrássemo-nos em tal situação. Eu e Chay, precisando um do outro, ouvindo um ao outro; era uma puta de uma amizade.



Creditos: Fanfics Obession


Quando for 2 horas eu posto o outro cap de cada web!

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