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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Boss 2

CAPÍTULO 11 p.2 - EMILY SUMMERS E LUA BLANCO




Thur Aguiar POV

Cemitérios são lugares assustadores. Calmos demais, tristes demais. Eu poderia sentir a tristeza que pairava naquele cemitério. E por mais que ainda fosse dia, tudo que eu podia ver eram trevas, e o obscuro. A morte é algo obscuro. Chay, no entanto, parecia não se incomodar tanto com o fato de estar em um lugar fúnebre como aquele cemitério. Ele andava à minha frente, indicando-me o caminho para o túmulo de Emily. É claro que nunca tinha ido ali, senão no dia do enterro; eu não costumo me encher de tamanha energia negativa que aquele cemitério passava. Nem ao menos me lamuriar pelo passado eu fazia, preferia não tocar no assunto, era muito mais fácil viver assim.

Era uma daquelas lápides de mármore cinza, colorido com flores que dividiam-se entre mortas e vivas, coloridas e murchas. Chay agachou-se e deixou mais um ramo de flores ao lado de outras que estavam murchas. Aquela velha expressão voltou ao seu rosto, tomando-lhe qualquer aspecto feliz. Eu o via chorar internamente por Emily, novamente. E eu sabia que no fundo ele chorava por arrependimento de nunca ter percebido o sentimento dela para com ele, por nunca ter sabido que Emily carregou um filho seu, ou que tinha uma doença fatal e jamais tocou no assunto. Eu também me arrependia, é claro, mas não era como Chay. Principalmente porque Chay parecia jamais esquecer do erro que cometeu, de ter dito que a amava tarde demais.
O silêncio tomou-se entre nós por alguns minutos incontáveis. Minha mente prendia-se completamente aos meus arrependimentos.
- Você tem que parar de frequentar esse lugar. - disse eu a Chay, jogando a única rosa que comprei, na pressa, sobre a lápide. - É horrível.
- Sei que sim, mas Emily está aqui, é o único lugar que eu posso encontrá-la. - disse-me Chay com um suspiro.
- Não é verdade. - uma voz feminina respondeu atrás de nós. Eu poderia jurar que era a Morte vindo me buscar, mas na verdade era apenas Lua, de jeans e moletom, nos encarando com cara de quem cansou correndo. Como diabos aquela mulher veio parar aqui?
- Lu? - perguntou Chay, mesmo sabendo a resposta para aquelas pergunta na ponta de língua.
- Eu mesma. - disse ela, aproximando-se, e ficando entre nós dois. - Você não precisa vir aqui para encontrá-la. Pode fazer isso onde quer que esteja. Aqui apenas repousam os ossos dela, tenho certeza de que você não amava ossos, certo? - ela suspirou - Você precisa sair dessa escuridão, Chay, e ficar no mesmo lugar sempre, remoendo seus erros e angústias, eu garanto que não é a coisa certa.
- E aí fala a herdeira Blanco, de Nova York, não é? - perguntou Chay cheio de pose, olhando-a de cima. Eu arqueei uma sobrancelha, sem entender o que diabos acontecia.
- Eu mesma. - ela repetiu. - Eu sei que vocês querem saber quem sou, mas ta aí uma coisa que até hoje eu não sei dizer.
- Como você sabia que eu estava aqui, e com ele? - perguntei assustado.
- Seu celular, chefinho, esqueceu lá em casa. - Ela pôs o celular no bolso do meu jeans, encostando a mão em meu ombro em seguida. Peguei o celular do bolso e vi as mensagens recebidas. Paige e Chay. Será que ela tinha lido as duas? Merda, eu ainda não havia acabado com Paige, o que significava que oficialmente, nós dois ainda estávamos juntos, e eu estava quase como um árabe polígamo.
- Você leu minhas mensagens?
- Eu não tinha como pegar o seu celular e fechar os olhos para não ver as mensagens, Thur. A diferença é que eu preferi não fingir que não li. - ela deu de ombros. Eu queria ficar puto com aquilo, mas sabia que não estava em posição para reclamar. No entanto, não pude deixar de guardar a discussão para depois.
- Sim, Lua Blanco, o que mesmo a senhorita veio fazer aqui? E desde quando você e o Aguiar voltaram?
- Vim visitar uma lápide. E eu prefiro não comentar sobre a segunda pergunta. - ela disse rapidamente, com as respostas na ponta da língua. - Sabe... - um breve suspiro - Eu nunca pensei que isso fosse realmente acontecer, sabe, de ela morrer. Eu falhei com ela e sinto que fui, de certa forma, responsável por sua morte.
- Como assim? - perguntei.
- Vocês lembram do dia... - ela hesitou - do aborto?
- Sim - eu e Chay respondemos em uníssono.
- Eu soube que Emily estava com câncer naquele dia.
- Por isso você se trancou com ela no banheiro? - Chay perguntou com uma cara insana.
- Não exatamente, mas de certa forma, podemos dizer que sim. Ela me pediu para não dizer a vocês, a ninguém. Emily resistiu a um câncer por mais de um ano sem medicação. Ela nunca fez mais do que quatro sessões de quimioterapia...
- E como VOCÊ descobriu isso? - Chay perguntou com raiva dissolvendo em sua boca.
- Clínica Blanco para pacientes com câncer. Era um dos empreendimentos da minha família, cujo qual meus pais eram responsáveis. Minha mãe era oncologista. Meu pai era empresário. Minha mãe era daqueles tipos de pessoas que não ligam para T.A.B.U.'s, e não pensou duas vezes quando me levava, ainda pequena, para a clínica. Eu era uma criança, e minha mãe odiava me deixar em casa sozinha, porque achava que eu acabaria uma mimada com babás adolescentes. - Lu parou de falar repentinamente para tomar ar - Então sim, eu ia muitas vezes ao hospital, e minha mãe me ensinara muitas coisas sobre o câncer. No passado não havia tantas pessoas assim doentes, principalmente porque a maioria morria. Quando meus pais morreram... - ela franziu a testa - Eu ainda ia para a Clínica, era um dos meios de fugir do meu tio Louis e seu bordel. Outros meios de fugir dele era fazer cursos. Por isso eu sei fazer várias coisas.
Eu sorri, como quem tem pena. Ter pena era uma coisa feia, mas quem quer que assistisse a mudança nas feições de Lu ao contar a própria história, perceberia que ter pena era inevitável.
- Eu tomei aversão a hospitais depois de um tempo, depois de ver tanta gente morrer ao meu lado. Ver as pessoas morrerem era horrível, e eu demorei muito a notar isso. Enfim, voltando ao ponto que interessa; nessas minhas idas ao hospital, as enfermeiras e médicos que eram amigos de minha mãe, cuidavam de mim e me ensinavam coisas.
- Coisas como saber que alguém está com câncer a olho nu? - eu perguntei sarcástico.
- Sim. Mas não foi exatamente o que eu vi que me fez perceber que ela estava com câncer. Era só uma suposição a partir dos sintomas. Depois daquele dia na festa, passei a conviver com Mily, e perceber que ela tinha alguma coisa errada foi uma questão de tempo. - Lu respondeu com um olhar triste sobre a lápide. Agachou-se e retirou o ramo de flores que estavam murchas, recolhendo-as.
- Lu... - Chay começou, parecendo recolher a raiva que lhe continha há pouco - Seria muito rude perguntar como seus pais morreram?
- Nossa casa foi incendiada. Há sempre os haters de bilionários como os meus pais, por mais que eles não dessem a mínima para o dinheiro. Digo, claro que eles gostavam de ser ricos, mas nunca colocavam o dinheiro acima de tudo. Meu pai era o homem que prezava a excelência no que quer que fazia, e minha mãe era do tipo ajudante da humanidade. - ela falou. - Eu estava durante o incêndio.
- E como sobreviveu? - perguntou Chay, curioso com a história.
- Era noite, estávamos dormindo. A mansão tinha dois andares, mas os quartos eram colados um no outro, sabe, o meu e o de meus pais. Eles gostavam assim. Acho que foi por isso que hoje eu estou viva. Quando acordei, o incêndio já era iminente, lembro quando uma das pilastras de estilo grego da casa caiu quebrando metade da minha cama. Meu pai me salvou. Eu só lembro de ter caído sobre o jardim.
- Por isso as cicatrizes nas suas costelas e braços. - Chay concluiu. O quê? Como ele sabia disso? Tá, tá, eu sei porque, não precisa me lembrar.
- É. - Lua concordou. Como eu nunca achei nada disso em seu corpo? Para mim tudo nela era macio. Estranho.
- Eu me sinto culpada por não ter levado-a comigo a Nova York e, quem sabe, ter salvado sua vida. Ou talvez fosse tarde demais. - disse Lu.
- Eu me sinto culpado por nunca ter visto que ela estava doente, e não ter correspondido aos seus sentimentos a tempo. - disse Chay. - E me sinto arrependido por muitas outras coisas.
- Por que tá todo mundo se culpando? - eu perguntei, balançando a cabeça. - Vocês não são culpados por nada. Até eu sei que se Emily está onde está foi porque ela quis. Chega, vocês dois, ficar se culpando, arrependendo-se. Sempre vai haver algo com que você queira se culpar ou arrepender, mas de que adianta, ficar stuck on repeat e perder o que a vida ainda oferece? Você dois estão vivos, porra! Vivos! E eu já falei que odeio esse lugar?
- Eu sei... - Lu falou triste. - Mas...
- Sem mais! Sentimento de derrotismo, vocês acham que era isso que Emily queria de vocês? - perguntei revoltado.
- Bom, na verdade Thur, eu acho sim. - disse Lu - Digo, eu sei que não convivi muito com Emily, e que errei com ela muitas vezes, mas ela era o tipo de pessoa que vivia do passado. Tanto que ela quis nos manter separados, para manter o trio maravilha que vocês eram quando crianças. Ela sabia que se eu entrasse na jogada, acabaria com isso.
- Olha, eu sinceramente não tenho a mínima idéia do que se passava na cabecinha de Dona Emily, mas eu sei que ela não estava sendo certa. - disse Chay rápido.
- Concordo. - disse eu.
- Também acho. - disse Lu, e então permanecemos em silêncio por um bom tempo, até a própria Lua interromper (como sempre) - Eu tenho uma idéia. Mas, podemos resolver isso segunda feira, no escritório. E, enquanto isso, eu acho que devemos desobedecer a lápide e continuarmos juntos. Não quero ser parte do trio maravilha, mas quero ser parte de suas vidas, se me permitem.
- Emily permitiria isso? - perguntei.
- Garanto que eu jamais roubaria seu lugar. Amém Emily, e não confundam o papel dela com o meu. - disse Lu, e nesse momento, eu senti a indireta tensa para mim. Era isso que eu havia feito, concordado com Emily como se Lu fosse roubar seu lugar, isso por ter escolhido "uma delas" no ano passado. Eu invoquei a fúria de Lua, e Chay parecia ter sacado a indireta também, já que olhava para mim to kill.
Começou a chuviscar, o que me fez olhar para cima, e avistar nuvens carregadas no céu.
- É melhor sairmos daqui, antes que nos molhemos. - Lu disse - E acho que todas as desculpas estão aceitas, sim?
- Yeah. - resmungamos em uníssono eu e Chay.
- Que bom, porque eu quero ir pra casa e já estou com fome de novo. - disse Lua, enquanto eu e Chay demos risadas abafadas, e os três saímos correndo pelo cemitério assustador até o estacionamento.




Creditos: Fanfics Obession

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